Fevereiro 11

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Vale(u) a Pena!


Relembro, com muita saudade, uma palestra realizada na década de 80, em Aveiro, sobre os sucessos dos atletas portugueses no meio-fundo e fundo. Não me recordo se foram apresentados conteúdos técnicos sobre treino que tanto procurava nessa altura porque, na verdade, não tenho memória de ter recolhido qualquer aprendizagem técnica relevante nesse dia. Contudo, não me esqueço do efeito vibrante e contagiante com que o Prof. Moniz Pereira defendia os resultados dos corredores portugueses, comparando-os com a dimensão dada a resultados de outros desportos. A falta de referências adequadas sobre atletas portugueses, que eram dos melhores do mundo, era já uma tendência desde essa altura. A forma como defendia o trabalho que se fazia na corrida em Portugal era um verdadeiro doping de motivação para quem tinha uma paixão pela corrida. Nesse dia, aprendi que a paixão, é talvez o “conhecimento” mais importante de todos, para se vingar na vida. Os “Lopes” e “Mamedes” do Prof. Moniz Pereira seriam resultados de muitas variáveis, mas os seus olhos, a sua expressão facial e movimentos teatrais denunciavam algo muito mais importante do que os aspetos técnicos do treino. Aquela paixão, percorria a sala e entoava com ressonância entre as paredes. Os recortes de jornal, comprovavam a lucidez de quem via o desporto como poucos, e continuava a ilustrar de forma muito vincada a sua paixão pelo treino, pela corrida e pelo esforço de “verdadeiros” heróis. 

A década de 80, foi incrível para os atletas portugueses de meio fundo e fundo. Como tive oportunidade de referir, a muitos desses nossos campeões numa formação realizada uns anos atrás na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, sentia-me enquanto jovem, “injectado” de motivação diária com os seus resultados desportivos, com partilhas dos seus treinos, com as suas entrevistas e pela revista atletismo que nos fazia chegar mensalmente motivos de sobra para nos sentirmos mais próximos destes atletas. Era através desta revista que lia artigos do Prof. Moniz Pereira, sobre a forma como abordava o treino de atletas como Carlos Lopes ou Fernando Mamede. O conhecimento não era muito sólido nem muito científico, mas o entusiasmo e o reconhecimento dos atletas pela sociedade, era um combustível perfeito para que muitos atletas se entregassem a uma vida abnegada pelo treino. Simplesmente porque valia a pena! E também porque, Moniz Pereira, fez questão de mostrar ao estado português e ao Sporting Clube de Portugal, que valia a pena! 

No nosso projecto editorial, INSIDE Running as a Lifestyle, escrevi na edição número 3, um artigo que intitulei “Regresso ao futuro”. Um texto que parte do princípio de que o passado não deve ser “arquivado”, mas reinventado utilizando tudo o que de melhor o trabalho do Prof. Moniz Pereira nos deixou para o futuro. E deixou-nos muito… A forma abnegada como se deve treinar, o exemplo da dedicação e perseverança que deve ser passada para os mais jovens, ou mesmo a importância da figura do treinador como elemento congregador de esforços de uma equipa em prol de objectivos comuns. Tudo isto constituiu importantes pilares no passado que se refletem no presente e viverão para sempre. Olhar para o futuro com os pés assentes no passado, significa respeitar as heranças que nos foram deixadas e fazer capitalizar o trabalho feito no passado em projectos desportivos de qualidade crescente. Isto significa, olhar em frente, com inovação e num profundo respeito pelo que nos foi dado por pessoas como Moniz Pereira.

O livro “Carlos Lopes e a Escola Portuguesa de Meio-Fundo e Fundo”, que o Prof. Moniz Pereira publicou em 1980, veio ajudar-me a tentar perceber o que justificava tamanhos resultados internacionais pelos atletas que treinava. Pensava, na altura, que se tratava de alguma receita mágica, sem ter ainda a percepção de que haviam factos cuja relevância não podia ser espelhada de forma técnica num livro e que só se entendem entre quem diariamente se entrega a esta tarefa do treino. Mas Moniz Pereira, tinha percebido desde cedo que tinha de estar um passo à frente na procura do conhecimento necessário para fazer a diferença. Este aspeto acabou por ser decisivo para muitos treinadores portugueses, que de alguma forma aplicavam estratégias comuns de treino nos seus atletas. O livro “Escola Portuguesa de meio fundo e fundo, mito ou realidade?”, do Prof. Mário Paiva, acabou por ser um trabalho notável que veio mostrar as influências, as similaridades nos processos e os hábitos de treino implementados pelos treinadores portugueses e que teve em Moniz Pereira uma fonte de inspiração. O treinador que nos fez acreditar que era possível conquistar o mundo!

Na década de 90, quando iniciei os meus passos como treinador de atletismo na ADC Constantim, era apenas um jovem sonhador que achava que podia ser um bom treinador. Entre tantos resultados e treinadores conceituados, pouco interessaria o que um jovem com 20 e tal anos fazia numa aldeia distante em Trás-os-Montes. Mas inspirados por uma energia que nos fez mover tudo e todos à nossa volta, desenvolvemos um clube de atletismo e “roubámos” jogadores de futebol para uma equipa de atletismo que passou a ser das melhores equipas da altura nos nacionais de pista. Editámos um “boletim informativo” do clube e pretendíamos mostrar a todos, o que fazíamos e porque fazíamos. Na altura, consegui o número de telefone de Moniz Pereira e arrisquei um telefonema para lhe pedir um texto para o nosso boletim informativo. Claro… nada estava assegurado, mas teria pouco ou nada a perder. Não consigo explicar, mas senti que pelo telefone, sem sequer me conhecer, percebeu que existia a paixão que justificaria o seu envolvimento com o nosso boletim como se se tratasse de um importante jornal nacional. E enviou-nos não um texto, mas um documento muito extenso que acabou por ser publicado em 3 edições diferentes. Falámos várias vezes ao telefone por causa desse texto e a paixão sentia-se sempre que falávamos no conteúdo desse texto.

No dia 20 de setembro de 2010, fui multado em Lisboa por ter passado o tempo máximo que pude colocar no parquímetro junto a sua casa. Foi uma, de várias tardes, que passei em sua casa a ouvir histórias do passado em que as memórias entre a música e a corrida se cruzavam de forma por vezes imprevista. A memória podia já não ajudar a relembrar sessões de treino, tempos das séries ou como planificava a época desportiva, mas a memória das emoções vividas em cada momento, fazia-me transportar para os Jogos Olímpicos onde nunca estive ou para os Mundiais de Cross ou de Pista que tinha assistido há alguns anos na TV. Tudo isto com um nível emocional que arrepiava.

Faz hoje 100 anos que nasceu o Prof. Moniz Pereira. Comemorar a sua vida e o seu trabalho, é algo que devemos fazer todos os dias. Na forma como olhamos para o nosso trabalho, para a energia e alegria que empregamos no que fazemos, no rigor, na forma como registamos o que fazemos, ou como coleccionamos as pequenas peças de um enorme puzzle. Gaveta a gaveta, ano a ano, detalhe a detalhe…

Hoje, foi apenas mais um dia para lembrar o que o Prof. Moniz Pereira nos deu, em especial ao meio-fundo e fundo nacional. Um dia, para também perceber, de que modo se faz um atleta ou um profissional de qualquer área: de paixão, dedicação e o sentimento de que temos de olhar para cada dia passado com o sentimento de que Valeu a pena!